AGRADECIMENTOS
Este material aqui apresentado faz parte do livro Fortaleza de Ontem e de Hoje, do arquivista Nirez, ou melhor dito, Miguel Ângelo de Azevedo, a quem agradecemos a possibilidade de mostrar a todos os interessados na história de Fortaleza essas perólas iconográficas, bem como seus comentários sobre a época retratada. Porém o site pretende tornar-se um centro de coleta e divulgação de dados históricos e curiosidades sobre Fortaleza. Se você possui algo a dizer ou mostrar da Fortaleza antiga, sinta-se em casa e nos escreva, pois é esse na verdade o objetivo do site.
Gildácio
José de Almeida Sá
Webdesigner
APRESENTACÃO
Este não é um livro sobre história, nem pretende ensinar
e esgotar qualquer assunto. É um livro feito para mostrar, através
do melhor documento que existe - a fotografia - as diferenças arquitetônicas
e urbanísticas de Fortaleza entre o passado e o presente, com fotografias
do final do século IX, de todo o século XX e hoje. A idéia
de fazer "Fortaleza ontem e hoje" surgiu quando o
autor (Nirez) tinha uma página no O Povo, onde explorava
fotos históricas de pessoas, rótulos, textos de curiosidades de
época e também a seção "Fortaleza ontem
e hoje", ainda hoje comentada e reclamada sua saída. Por
isto, a idéia de fazer-se um livro.
Os
textos que descrevem as fotos contêm apenas algumas poucas informações,
somente para indicar o que existiu, comparando com o que existe. Não
há pretensão de se fazer história, mesmo porque se trata
de um trabalho de compilação, já que todos os dados foram
extraídos de publicações diversas como pode ser visto na
Bibliografia, no final do livro.As fotografias antigas foram conseguidas no
arquivo Nirez, ora em postais, outras vezes em revistas, livros e até
em negativos originais; nos textos são citadas as fontes.
As fotografias intermediárias, colhidas entre 1975 e 1991 foram batidas
por Nirez e as atuais foram todas colhidas pelo desenhista e fotógrafo
Osmar Onofre, procurando sempre conservar o ângulo da foto antiga.
Como as máquinas fotográficas atuais são menores que as antigas, seus filmes são de 35mm, quando os antigos tinham filmes e chapas de vidro de até 18x24cm de tamanho, os ângulos das fotos atuais muitas vezes podem não coincidir com o das antigas. Existe também o problema das distâncias entre o fotógrafo e a imagem a ser apanhada, que as lentes modernas, embora muito avançadas, não podem adaptar sem destorcer um pouco.O leitor atento poderá descobrir muitas outras coisas que não existem nos textos, sabendo-se que surgiram várias coisas em Fortaleza em épocas diferentes e que podem ajudar a situar a foto na época, como: A primeira estação rádio-telegráfica de Fortaleza que se instalou em 1922 com duas grandes torres na Praia de Iracema; a telefonia em Fortaleza surgiu em 1883, mas a primeira empresa telefônica data de 1891; a água encanada começou a ser colocada em 1911, mas só se concretizou em 1926 os bondes de tração animal surgiram em 1880 e foram até 1913.
Em
1894 os trilhos chegaram ao Benfica vindos de Porangaba e em 1896 no Outeiro.
Em 1913 passaram a ser substituídos pelos bondes elétricos; em
1947 circulou o último bonde e no ano seguinte iniciou-se a retirada
dos trilhos; a iluminação pública a azeite de peixe data
de 1848.
A iluminação a gás é de 1866. A iluminação
elétrica, de 1935; o calçamento de pedras toscas vindas do Mucuripe
data de 1857 e os de pedras vindas de pedreiras nas serras data da grande seca
de 1877-79.
O paralelepípedo foi introduzido em 1933, assim como o piso de concreto. Em 1921 foi instituído o uso do meio-fio; o asfalto data já da década de 60. As datas de construção de prédios e de urbanização de praças também podem orientar para datar uma foto.
Algumas
fotos atuais já não estarão tão atuais quando o
leitor entrar em contato com este trabalho, pois as modificações
ocorrem todos os dias e algumas fotos estarão completamente desatualizadas,
como os locais que estão em obras, como a Praça da Sé e
o Metrofor.
Nirez
PREFÁCIO
Nirez, ou melhor dito, Miguel Ângelo de Azevedo, é um colecionador. Por certo dos mais conhecidos da Cidade, não apenas pela qualidade e pela quantidade de suas coleções, de declarado valor cultural, mas também pela generosidade com que as franqueia aos interessados.
Modesto e afável, comporta-se de modo antagônico àquele estereótipo de colecionador com ares de avarento, cujos bens, guardados unicamente para si, permanecem interditados à mais rápida vista d'olhos, mesmo dos íntimos.
As coleções do Nirez espalham-se pela sua casa, ocupando espaços preciosos, subtraídos ao conforto doméstico. Na verdade, pertencem mais ao público do que a ele próprio, pois estão sempre à disposição de quantos as procuram.
E diga-se mais: não contente com expor suas notáveis coleções de discos e de fotografias ou sua biblioteca especializada, o Nirez se permite identificar visualmente todo o vastíssimo acervo, sem precisar recorrer aos fichários, todos de exemplar organização. O domínio da matéria, com espantoso conhecimento, permite-lhe assim prestar imediata e cabal explicação da origem e da importância de cada peça, extraindo prazerosamente cópias de tudo o quanto lhe é solicitado.
A fim de poder reproduzir o material de suas coleções, passou a dominar técnicas de fotografia, aos poucos penetrando nos segredos da eletrônica, de modo a se livrar da dependência de terceiros quanto ao uso e à manutenção do equipamento. Finalmente, o Nirez passou a recorrer ao mundo da computação como um novo meio de controle arquivológico, tudo para atender com maior presteza aos que lhe pedem ajuda.
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De que constam as coleções do Nirez? Como são muitas, tentemos apresentá-las por partes:
O acervo iconográfico compõe-se de cerca de 10.500 fotografias de Fortaleza e sua gente e também do interior do Estado, cobrindo um período que se estende entre 1893 e os dias de hoje. As fotografias de 1893 são menos numerosas, apenas doze, extraídas do raríssimo catálogo com que o Ceará se fez presente à Exposição Internacional de Chicago em 1893 (State of Ceará / Brief notes for the exposition of Chicago). Outras fotos procedem das duas versões do Álbum de Vistas do Ceará, mais citadas como "Álbuns do Boris" (1908), impressos em 1908, na França, em Nancy, sob o patrocínio da Casa Boris. Muitas outras fotos foram transcritas de mais álbuns, como o Impressões do Brasil no século XX (1912), o Próprios Estaduais, de 1914, o Terra Cearense (1925), do italiano Nicolao Savastano, o Álbum de Fortaleza (1931), de Paulo Bezerra. Ainda há inúmeras fotografias em cartões- postais, modo de comunicação pessoal posto em prática entre nós desde o começo do século XX.
Além das fotografias da cidade, todas catalogadas por praças, ruas e avenidas, o Nirez possui negativos de 1.000 originais (muitos de vidro), à parte os negativos das restantes fotos, por ele mesmo transcritos em filmes de 36mm, material que lhe permite atender aos pedidos de cópias com rapidez.
Simplesmente fantástica é a coleção de discos de cera (78 rpm), nacionais, do período de 1902, quando se iniciam as gravações no Brasil, até 1964, ano em que se encerrou o emprego desse meio de registro sonoro, então já sem condições de concorrer com os discos ditos Long-play, de 33 rpm, e estes, com o campact disc (CD).
A coleção de discos do Nirez é uma das maiores, senão a maior do País no seu gênero, complementada com farto material iconográfico pertinente (fotografias de interpretes, instrumentistas, compositores), ao qual se junta uma selecionada biblioteca especializada.
Por força do conhecimento de tudo o quanto se relaciona com aqueles tempos áureos da música popular brasileira, freqüentemente o Nirez é convidado para participar de mesas- redondas, seminários e entrevistas em diferentes pontos do Brasil. Figura, aliás, como co-autor da notável obra em cinco volumes, publicada sob os auspícios da FUNARTE e intitulada Discografia Brasileira - 1902 / 1964, na qual estão relacionados todos os discos gravados no País naquele período.
Para divulgação de seu acervo magnífico, o Nirez promove desde 1963 um programa radiofônico dominical, transmitido atualmente pela Rádio Universitária FM.
Talvez não satisfeito com suas coleções de discos e de fotografias, em que, nas últimas, além de vistas urbanas, incluem cenas com pessoas, grupos, ocorrências históricas, bem como com seus discos de cera, o Nirez conseguiu armazenar um conjunto de fitas magnéticas contendo mais de duzentos depoimentos de compositores, cantores, instrumentistas, políticos, vultos populares.
Além do mais, conta ainda com um excelente acervo de estampas e de figurinhas, antigamente distribuídas como brindes em sabonetes, balas, bombons, e também, rótulos diversos (de cigarros, perfumaria, alimentos, bebidas). À parte as obras especializadas de sua biblioteca também dispõe de coleções de revistas antigas, tais como Noite Ilustrada, Carioca, Eu sei tudo, O Cruzeiro, à parte almanaques, boletins e catálogos vários. Acrescentem-se a esse conjunto precioso, objetos diversos, desde gramofones, vitrolas, rádios antigos, pequenos cofres, espadas, até velhos perfumes ainda guardados em seus recipientes originais...
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Como nem todos têm a oportunidade de visitá-lo ou pensando naqueles
que desconhecem suas coleções, há muito tempo o Nirez decidiu
divulgar o material, nomeadamente as fotografias da Cidade e de sua gente. Para
tanto, ocupou durante anos uma página dominical de O Povo, página
hoje, por circunstâncias alheias à sua vontade, após reduzida
a uma coluna de informações ocasionais, desapareceu.
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Preocupado com as naturais dificuldades de consulta aos textos apresentados em jornais, o Nirez resolveu selecionar, de sua vastíssima coleção, um bloco de fotografias da Cidade antiga, reunindo-as neste livro, publicado em primeira edição pela Fundação Cultural de Fortaleza e, agora, sob o patrocínio da Fundação Demócrito Rocha. A obra revela o trabalho cansativo de comparar os flagrantes da Fortaleza do passado com o atual cenário urbano, documentando-o dos mesmos pontos onde as velhas fotografias foram feitas.
Não sei se a comparação resultou num bem!... Postos de lado, presente e passado desta Fortaleza sofrida, ao apreciá-los, desorienta-se o observador menos sensível, pasmo diante do espetáculo de aviltamento da paisagem urbana dos dias contemporâneos.
As fotografias recentes da Cidade atual foram realizadas aos domingos. Nos dias úteis, seria impossível obtê-las, em face do congestionamento dos logradouros, transbordantes de veículos, pessoas e mil tralhas de atravancamento das calçadas. Em quaisquer circunstâncias, a comparação entre o antigo e o presente torna-se dramática, tal o empachamento visual a que as ruas são submetidas, sob as mais imprevisíveis mensagens lançadas a torto e a direito, agravado pela floresta de postes e pelo emaranhado de fios que cruzam o espaço público. Isto para não referir certas sensações que as fotografias não registram, o infernal barulho ouvido em todos os recantos e os odores pouco agradáveis de determinadas zonas.
A cidade é um organismo vivo, em mutação permanente. Não pode permanecer cristalizada, posto que sua forma física está sujeita a fortes e variadas pressões econômicas, sociais e culturais. Nesse volver de contínuas mudanças, muitas transformações seriam em princípio até admissíveis, desde que contribuíssem para a melhoria do uso dos espaços e de seu agenciamento estético ou, pelo menos, não desfigurassem os marcos paisagísticos memoráveis.
As fotografias de diferentes épocas demonstram o processo de remodelação tentado pela Cidade em busca de um aprimoramento da aparência urbana. Percebe-se claramente um ciclo que durou talvez até os dias da última Grande Guerra, em meados do século XX, mais evidente nas décadas de 20 e 30. A allure elegante e harmoniosa apresentada pela Cidade no fim daquele período comprova a assertiva de maneira incontestável, revelando um modo sutil de intervir, modernizando, sem descaracterizar o antigo.
Até então, a presença, talvez não se dissesse de valores, mas de certas aspirações deliberadamente urbanas, quer no comportamento da população quer na ação dos grupos dirigentes, alcançou notáveis resultados materiais, com o conseqüente rebatimento na organização física da Cidade.
Depois de meados do século não se tornou possível a manutenção da unidade arquitetônica nem se conseguiu respeitar um mínimo de uso adequado dos espaços urbanos: velhos problemas de organização física. A retirada, da zona central, de quase todas as referências simbólicas de poder que marcam física e civicamente a condição de uma cidade-capital; a fuga das repartições públicas para os confins do município, privando o comércio de clientela mais refinada; a legião de novos-ricos de fortuna mal explicada; a ingestão de levas de sertanejos sem hábitos de vida urbana; a falta de um lastro cultural historicamente sedimentado em condições de fornecer rumos comportamentais de real interesse da Cidade, tendo como resultado a imitação subserviente de quaisquer mensagens alienígenas; a formação de camadas sociais espacialmente estratificadas; a montagem de uma sociedade pouco produtiva, iletrada e pobre, direcionada para a prática de um hedonismo consumista promovido pela comunicação de massa; tudo, enfim, tem contribuído desde a segunda metade do século XX para perda dos traços de identidade urbana que marcavam a Fortaleza de há menos de cinco décadas, e cujos reflexos transparecem na destruição da memória cultural e física da Cidade.
Nesse processo, não se verificou, como seria lícito esperar, sequer a substituição do antigo, mínima que fosse, por uma aparência nova, de certo mais condizente com as dimensões de uma grande cidade. Ao contrário, quando não ocorreu a total demolição do pouco que se dispunha, nas mais das vezes prevaleceu a aposição de máscaras espalhafatosamente cafonas sobre o remanescente arquitetônico.
A comparação das fotografias do livro constitui um libelo mudo contra o quadro desanimador oferecido pelo confronto entre o passado e o presente.
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Depois de tantos males, agora pelo menos se começa a questionar a destruição sem limites a que a Cidade foi submetida. Questionamento muitas vezes unicamente sentimental, como lamento, ou amadorista, como proposta de ação. Não importa. A campanha tem de ser incentivada por todos os meios e modos. No fim de contas, a manifesta preocupação de amplas faixas de fortalezenses com o seu passado urbano já traduz uma esperança para a Cidade do porvir.
As referências ambientais do passado devem ser preservadas, contextualizando-as com o presente, na busca concomitante de recriar a Cidade do futuro com o mesmo encanto da Fortaleza antiga, embora reformulada numa escala gigantescamente ampliada.
O livro do Nirez dá-nos uma lição quanto ao que deve ser feito.
Benfica,
LIBERAL
DE CASTRO